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Story 19 Nov, 2025

Tech4Nature: Como a inovação de baixo custo e o conhecimento tradicional estão ajudando comunidades amazônicas a enfrentar uma costa em transformação

Com mais de 8.000 km² ao longo da costa norte do Brasil, os manguezais amazônicos formam um dos ecossistemas contíguos de mangue mais extensos do planeta — um escudo vivo entre o Oceano Atlântico e a imensa floresta. Por gerações, esse território sustentou milhares de famílias que dependem da pesca, da captura de caranguejos e dos recursos da floresta para viver. Hoje, porém, a linha costeira está mudando mais rápido do que nunca. A elevação do nível do mar, fortes marés e uma erosão acelerada estão transformando a Ilha de Marajó, perto de Belém (Pará), colocando em risco tanto as pessoas quanto a natureza. 

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Photo: José Alvarez

Na Reserva Extrativista Marinha (RESEXMAR) de Soure , esses impactos já não são alertas distantes — estão remodelando a vida diária. As praias desabaram, os bancos de areia desapareceram e, somente na Praia do Pesqueiro, mais de quinze casas foram destruídas pelo avanço do mar. Onde os manguezais antes funcionavam como barreiras naturais, o desmatamento ou o redução da cobertura deixaram trechos expostos, tornando as marés mais destrutivas. As famílias vivem agora em constante incerteza, vendo a costa se aproximar ano após ano.

Coastal erosion on the Pesqueiro Beach, where coastal erosion has exposed a “paleo-mangrove”. This clay structure, an older geological layer, was previously buried beneath the sand
IUCN
Coastal erosion on the Pesqueiro Beach, where coastal erosion has exposed a “paleo-mangrove”. This clay structure, an older geological layer, was previously buried beneath the sand.


 

Destroyed house on the Pesqueiro Beach
IUCN
Destroyed house on the Pesqueiro Beach.

 

Compreendendo uma costa que muda rapidamente

Neste contexto, a iniciativa Tech4Nature, implementada pela UICN e pela Rare Brasil, está ajudando a comunidade a enfrentar o clima com algo que há muito lhes faltava: dados confiáveis, contínuos e acessíveis. Embora o conhecimento tradicional permaneça central para a compreensão do território, o ritmo acelerado das mudanças ambientais exige novas ferramentas. O Tech4Nature constrói essa ponte ao combinar a experiência local com tecnologia moderna adaptada para contextos remotos e com poucos recursos. No Brasil, a iniciativa faz parte de uma parceria global lançada pela Huawei e pela UICN em 2020 para escalar soluções de conservação por meio da inovação tecnológica.

No coração do projeto em Soure está uma estação oceanográfica e meteorológica de baixo custo, desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) e instalada na região estuarina da reserva. Diferente das estações comerciais, que são proibitivamente caras para a maioria das áreas protegidas, esse protótipo é muito mais acessível e escalável. Ele registra continuamente a temperatura do ar e da água, precipitação, salinidade da água, velocidade do vento e nível do mar — indicadores chave sobre como os padrões climáticos estão mudando na região. Como os dados são coletados de um ponto fixo por longos períodos, a estação permite a criação de séries históricas que revelam tendências, como marés mais intensas, aumento da temperatura ou os fatores climáticos que impulsionam a erosão costeira. 

Lisângela Cassiano, ICMBio, and the first Tech4Nature monitoring station.
IUCN
Lisângela Cassiano, ICMBio, and the first Tech4Nature monitoring station.

 

Para Lisângela Cassiano, gestora da reserva pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), autoridade brasileira responsável pelas Unidades de Conservação, essa tecnologia representa um ponto de inflexão. “Esta estação meteorológica de baixo custo nos permite gerar os dados históricos que precisamos para entender a mudança climática na região. Ao ligar essas medições abióticas ao monitoramento da biodiversidade feito junto com pescadores locais, finalmente temos provas que podem orientar uma gestão futura e proteger tanto o ecossistema de mangue quanto os meios de vida que dele dependem”, afirma.

Monitoramento comunitário e inovação de baixo custo

As inovações vão além do equipamento. Todos os dados ambientais estão sendo integrados a uma plataforma online projetada para acesso em tempo real pelos pescadores. Quando estiver plenamente operativa, a comunidade poderá monitorar as condições ambientais — uma ferramenta importante num lugar onde as marés mudam rapidamente, o risco de erosão pode variar da noite para o dia e as áreas de pesca podem exigir descanso temporário para proteger as populações de caranguejo. O sistema também ajuda os pescadores a dar sentido ao que já observam. Se notarem que os caranguejos estão cavando mais fundo ou que as marés estão atingindo alturas inéditas, poderão comparar essas impressões com os dados, em vez de depender só da memória ou da experiência empírica.

Isso é especialmente importante para pescadores como Paulo Torres, que ajudou a criar a reserva em 2001 para evitar a superexploração do caranguejo-uçá (Ucides cordatus), espécie “Quase Ameaçada” no Brasil, essencial para a sobrevivência de quase 8.000 pessoas na reserva. Esse caranguejo — um verdadeiro engenheiro do ecossistema — mantém a saúde do mangue por meio do seu comportamento de escavação. 

The Atlantic mangrove ghost crab, known locally as caranguejo-uçá (Ucides cordatus).
ICMBio
The Atlantic mangrove ghost crab, known locally as caranguejo-uçá.

 

Mangrove monitoring plot in Soure.
IUCN
Mangrove monitoring plot in Soure.

 

O caranguejo é nosso principal recurso: é o que comemos e o que sustenta nossas famílias”, diz Paulo Torres, presidente da ASSUREMAS, a associação local dos usuários da reserva. “Mas com a mudança climática a situação ficou muito difícil: o calor aumentou, os caranguejos cavaram mais fundo, os camarões buscam águas mais frias e tudo isso torna nosso trabalho muito mais árduo. E isso afeta nossa saúde — passamos mais tempo no mangue, expostos ao calor extremo, e muitos de nós adoecem pelo esforço físico.” 

Paulo Torres, fisherman and president of ASSUREMAS
Personal archive, Paulo Torres
Paulo Torres, fisherman and president of ASSUREMAS.

 

Por meio do Tech4Nature, essas experiências vividas estão sendo documentadas ao lado de dados científicos pela primeira vez. O monitoramento da biodiversidade realizado pelo Programa Monitora do ICMBio agora se combina com os indicadores climáticos da estação meteorológica, revelando como a mudança climática influencia a população de caranguejo, a saúde do mangue e o ecossistema em geral. O projeto inclui nove parcelas de monitoramento de mangue e caranguejo distribuídas em três locais da reserva, bem como 1.000 entrevistas conduzidas por meio de monitoramento participativo de pesca de caranguejo envolvendo moradores. Os pescadores locais ajudam a identificar áreas de amostragem e participam diretamente da coleta de dados, garantindo que o monitoramento se concentre nos locais mais relevantes para seus modos de vida. 

 

Crab burrows in monitoring plot.
IUCN
Crab burrows in monitoring plot.

 

Construindo resiliência baseada em evidências

Essa integração de conhecimento tradicional, participação comunitária e tecnologia moderna fortalece a gestão adaptativa da reserva. As decisões sobre quando ajustar temporadas de pesca ou como preparar-se para marés extremas podem agora se basear em evidências, não apenas em intuições. A excelência da gestão da reserva — construída ao longo de duas décadas de liderança comunitária — já foi reconhecida internacionalmente. Soure é a primeira área protegida do Brasil a integrar a Lista Verde da UICN, um padrão global para a conservação  efetiva e justa.

Para a UICN, o sucesso do piloto do Tech4Nature em Soure mostra o que é possível quando ciência, tecnologia e liderança comunitária se unem. “As ações realizadas por meio do projeto Tech4Nature, por meio da UICN, através de seu Escritório Regional para a América do Sul, que apoia o ICMBio, estão gerando dados científicos essenciais para que autoridades e comunidades locais tomem decisões mais rápidas e bem informadas diante de impactos climáticos como a erosão costeira e as mudanças no ecossistema de mangue”, afirmou Gabriel Quijandría, Diretor Regional da UICN para a América do Sul. “E o reconhecimento da Reserva Extrativista de Soure como a primeira área protegida do Brasil na Lista Verde mostra que, mesmo com o uso de recursos naturais pelas comunidades locais, a gestão baseada em evidências garante a proteção efetiva da biodiversidade e dos meios de vida que dela dependem.”

À medida que as pressões climáticas se intensificam ao longo da costa amazônica, a população de Soure demonstra que a adaptação não é apenas possível, mas já está em curso. Com o apoio do Tech4Nature, a comunidade agora tem as ferramentas para documentar as mudanças ambientais, reivindicar uma proteção mais robusta e planejar um futuro onde o mangue — e as famílias que dele dependem — permaneçam resilientes. 

 

Gabriel Quijandria, IUCN, in a mangrove monitoring plot in Soure.
IUCN
Gabriel Quijandria, IUCN, in a mangrove monitoring plot in Soure.